"É óbvio que vou falar de Lula outra vez.
Do que mais falaria??
Só que desta vez não vou falar do Lula da Caravana, do velhinho gente boa que sai por aí sendo agarrado e beijado pelo povão.
Vou falar de outro Lula, do Lula antes do “Transformismo”.
“Transformismo"!
Esse é o conceito que parte da esquerda brasileira foi buscar lá no Gramsci para acusar Lula de “traição”, de ter sido “cooptado pelo capital".
É claro que nos últimos trinta anos o personagem Lula se transformou. Não é possível ficar igualzinho por trinta anos.
Acho que só mesmo alguns setores da esquerda brasileira são capazes de feito tão difícil: hoje, como antes, essa galera está errada. Vai estar errada amanhã também.
Vamos lá, então, pro textão:
Lula fase 01, 1989.
Logo depois de perder as eleições para Collor, em entrevista pra Revista "Isto é", Lula diz:
“Não foi só por causa da Globo. Precisamos reconhecer isso: o povo trabalhador pobre preferiu votar no Collor. Temos que entender o motivo”.
Lula disse algo parecido em 1994 e 1998: nas duas ocasiões, o povo pobre preferiu FHC. E teve motivo pra isso. Naquela altura, FHC encarnava a estabilidade, a inflação sob controle.
O povo sabe o que faz. Pode não verbalizar bonito, cheio das intelectualidades, mas sabe o que faz.
Lula transformado, fase 02. 22 de junho de 2002.
Foi nesse dia que veio a público a tal “Carta aos brasileiros”.
“Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país. (...)Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar os seus compromissos. (...)A estabilidade, o controle das contas públicas e da inflação são hoje um patrimônio de todos os brasileiros. Não são um bem exclusivo do atual governo, pois foram obtidos com uma grande carga de sacrifícios, especialmente dos mais necessitados.”
Nos últimos anos, setores da esquerda brasileira usaram e abusaram dessa carta, publicada no coração da campanha eleitoral de 2002, como se ela fosse a prova cabal da traição, do transformismo de Lula.
A questão aqui é de total incompreensão, de total incapacidade de entender o que é o Brasil.
Essas pessoas não entenderam o que aconteceu em 1989, o que aconteceu em 1994 e o que aconteceu 1998.
Jesus, essas pessoas não entenderam nada. Gente formada, inteligente, alguns até com diploma de doutor.
Não entendem, não entendem.
Lula entendeu rapidinho. Começou a entender em 1989, e se transformou.
Se transformou pra agradar o mercado, pra agradar os empresários e pra agradar o povão.
Pois sim, amigos, temos aqui a verdade que a maior parte da esquerda nunca quis enxergar, apesar de ser tão óbvia:
O povão, o povão mesmo, o povo fudido, que vive com menos de dois salários mínimos, não gosta da esquerda, não vota na esquerda.
Nunca gostou nunca votou.
O povão não votou em Lula enquanto olhou pra ele e viu ali um cabra de esquerda.
O povão não gosta da esquerda porque a esquerda bagunça a vida, traz instabilidade. Quem não tem nada não gosta de bagunça, não gosta de instabilidade.
É a esquerda quem faz protesto na rua e atrapalha o trânsito.
A criatura que tá ali, às 18 horas, num busão na Presidente Vargas, louca pra chegar em casa, lá em Queimados, fica puta com aquele bando de gente fechando o trânsito. A pessoa nem sabe do que se trata, mas já tá contra.
O povão, povão mesmo, to falando do povão fudido, que tem que arrumar dinheiro emprestado pra comprar gás (o gás sempre apronta; acaba assim, do nada, sem avisar).
Então, essa galera não gosta de grevista; não gosta quando o professor faz greve, quando os rodoviários fazem greve.
Essas pessoas são tão fudidas, mas tão fudidas, que qualquer coisa que colabore pra aumentar a fudelância já é vista como uma parada naturalmente ruim.
“Ah, mas essas pessoas precisam aprender a olhar mais adiante, entendendo que as lutas demoram para dar resultado.”
Olha que fofo. Não, amiguinh@. Se você tivesse ideia do que é ser muito fudido na vida, você saberia que quem vive na merda não tem tempo pra esperar o amanhã chegar. Utopia é privilégio.
O povão, o povão mesmo, não gosta do cara de esquerda que diz que tá de boa menino namorar com menino.
A galera já começa a achar que vão obrigar o neto, o filho, a namorar pelo bumbum, que os meninos vão começar tudo a querer usar saia.
povão, povão mesmo, não gosta desse lance de empoderamento.
O povão não quer ver mulher gorda pelada no palanque. O povão quer nada disso não. Acha estranho, “coisa dessa gente de esquerda”.
Resumindo: o povo não vota na esquerda porque não gosta da esquerda. Acha uma gente estranha, feia, com umas roupas esquisitas.
“Tudo viado, tudo puta, tudo maconheiro. Esse povo de faculdade”.
Lula entendeu isso, meus amigos.
Entendeu antes de mim, antes de vocês, antes de todo mundo.
Entendeu e se transformou, pois aquele ali, de burro, não tem nada.
A carta aos brasileiros teve mais de um destinatário: não foi só para o mercado, não foi apenas para os empresários.
Foi pra agradar o povão, pra dizer assim: “gente, calma, vou ser presidente e não o metalúrgico grevista. Tudo vai dar certo, devagarzinho, sem bagunça".
Aí sim, o povão votou em Lula, quando viu ali estabilidade, ordem. Não é só o Mercado que gosta de estabilidade e ordem.
Lula se transformou, mas não porque traiu o povo.
Se transformou porque aprendeu a respeitar o povo, a entender o que o povo quer: vidinha tranquila, comida no prato, geladeira nova, novela na TV de plasma e aquele amorzinho gostoso debaixo dos lençóis, pra fazer neném.
Lula entendeu isso melhor que ninguém e, por isso, é o maior de todos.
Não se enganem, o povão não gosta da esquerda. Nunca gostou. O povão gosta mesmo é do Lula.
Não foi o PT que sobreviveu à crise, muito menos a esquerda.
O PT tá fudido, a esquerda tá fudida.
Quem sobreviveu à crise foi Lula!
Não se iludam. Não existe Plano B."
Por Rodrigo Perez Patricia Lopes de Oliveira
