Antes que essa matéria seja retirada do ar, transcrevo ela integralmente como foi postada na Internet pela Revista Veja! Caso ela ainda esteja no ar (as eleições estão chegando e o Aébrio está falando muito na Petrobras) você poderá ler aqui seu original.
Sinta o regozijo de Veja ao dar esta informação:
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A fera domada
Como o governo finalmente
assumiu o controle da Petrobras
Sob o comando de Joel Rennó (à dir.), a Petrobras faturava 26 bilhões de dólares anuais e tinha um lucro operacional minúsculo, de 11 milhões de dólares. Com o novo presidente, Henri Reichstul (à esq.), o governo vai desfazer-se de 34% das ações. Poderá vender algumas refinarias. A Petrobras, que é a maior empresa do país, passará a ser administrada como empresa privada.
Foram precisos quatro anos, dois meses e 24 dias para o presidente Fernando Henrique assumir o comando de uma expressiva parcela de seu reinado: a maior empresa brasileira, a Petrobras. Desde o início do primeiro mandato, FHC discute com os assessores a necessidade da troca de comando na estatal do petróleo, que eliminaria resistências e possibilitaria ao governo interferir no destino da companhia. Em pelo menos duas ocasiões seu movimento foi barrado por pressões corporativistas poderosas. A novela viveu os últimos capítulos na semana passada. O engenheiro Joel Rennó, que ocupou a presidência da Petrobras por seis anos, comportando-se, de maneira geral, como se o governo não fosse o principal acionista da companhia, deixou o cargo. Assumiu o posto o economista Henri Philippe Reichstul, secretário-geral do Ministério do Planejamento à época de João Sayad, no governo do presidente José Sarney. Com a troca de comando, a Petrobras, 15ª do mundo no setor petrolífero, inicia um processo de transformação: despe o uniforme estatal e ensaia os primeiros passos com o leve traje das companhias privadas.
A tarefa não poderia ser levada adiante pela antiga equipe. Historicamente, a Petrobras forma um corpo coeso que resiste à perspectiva de privatização. A nova gestão elegeu como meta principal a "descontaminação" da empresa. Todos os diretores serão substituídos no período máximo de três meses. Orlando Galvão, diretor financeiro e depositário da caixa-preta da companhia, é a exceção. Como o governo tem pressa em conhecer as entranhas da estatal, abrir as contas e os negócios, ele será detonado de imediato. "Desmontar a trama de interesses consolidada no decorrer de seis anos é tarefa para gigante", diz Luís Octávio da Motta Veiga, ex-presidente da estatal.
Além dessa faxina, a extinção do velho conselho de administração e a pulverização do capital da empresa são as maiores modificações em curso. Com nove membros, dos quais sete diretores têm mandato vencido desde o ano passado, o velho conselho não passava de um arranjo em que diretores prestavam contas a si mesmos e se autogovernavam. O novo conselho tem mais força na hierarquia e é composto de nomes que acrescentariam qualidade profissional e experiência a qualquer empresa privada brasileira. Com um pouco de boa vontade, pode-se dizer que o governo colocou em curso uma privatização "branca" na Petrobras. Ele controlará a empresa com a maioria de 50% das ações mais uma. Vai desfazer-se de outros 34% das ações que possui. Algumas das onze refinarias serão vendidas. "A privatização pára aí", garante David Zylbersztajn, diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, órgão controlador do setor. "Não faz sentido tirar um monopólio do setor estatal e passá-lo ao setor privado."
A Petrobras fatura 26 bilhões de dólares por ano. Controla subsidiárias como a BR Distribuidora e a Petroquisa (com participação nos pólos petroquímicos). Está associada a multinacionais, domina o gasoduto Brasil–Bolívia, o transporte de petróleo e a distribuição de gás nos Estados, exceto em São Paulo. Segundo estimativas da Agência Nacional de Petróleo, deverá atrair 60 bilhões de dólares em investimentos nos próximos vinte anos. A batalha pelo controle desse império não foi fácil. Joel Rennó só jogou a toalha ao constatar que não teria nenhuma chance de sobreviver. Nas últimas semanas, o ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, só se comunicava com ele por fax e, em Brasília, chamou sua atenção numa reunião com técnicos da empresa. Suas amarras políticas se esgarçavam. A principal delas, o senador Antonio Carlos Magalhães, enquanto Rennó caía, batalhava para fazer o sucessor.
Um integrante da comitiva do presidente Fernando Henrique na inauguração da Hidrelétrica de Porto Primavera viu ACM segurar David Zylbersztajn e perguntar: "Você não quer atravessar a rua?" "Mesmo que quisesse, senador, estou impedido legalmente", respondeu Zylbersztajn. ACM fazia alusão aos edifícios da Agência Nacional de Petróleo e da Petrobras, no Rio, separados por uma ruela. No avião de regresso a Brasília, ACM confidenciou ao ministro Tourinho: "Se ele topar assumir a Petrobras, a gente dá um jeito para uma interpretação legal favorável".
A tarefa não poderia ser levada adiante pela antiga equipe. Historicamente, a Petrobras forma um corpo coeso que resiste à perspectiva de privatização. A nova gestão elegeu como meta principal a "descontaminação" da empresa. Todos os diretores serão substituídos no período máximo de três meses. Orlando Galvão, diretor financeiro e depositário da caixa-preta da companhia, é a exceção. Como o governo tem pressa em conhecer as entranhas da estatal, abrir as contas e os negócios, ele será detonado de imediato. "Desmontar a trama de interesses consolidada no decorrer de seis anos é tarefa para gigante", diz Luís Octávio da Motta Veiga, ex-presidente da estatal.
Além dessa faxina, a extinção do velho conselho de administração e a pulverização do capital da empresa são as maiores modificações em curso. Com nove membros, dos quais sete diretores têm mandato vencido desde o ano passado, o velho conselho não passava de um arranjo em que diretores prestavam contas a si mesmos e se autogovernavam. O novo conselho tem mais força na hierarquia e é composto de nomes que acrescentariam qualidade profissional e experiência a qualquer empresa privada brasileira. Com um pouco de boa vontade, pode-se dizer que o governo colocou em curso uma privatização "branca" na Petrobras. Ele controlará a empresa com a maioria de 50% das ações mais uma. Vai desfazer-se de outros 34% das ações que possui. Algumas das onze refinarias serão vendidas. "A privatização pára aí", garante David Zylbersztajn, diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, órgão controlador do setor. "Não faz sentido tirar um monopólio do setor estatal e passá-lo ao setor privado."
A Petrobras fatura 26 bilhões de dólares por ano. Controla subsidiárias como a BR Distribuidora e a Petroquisa (com participação nos pólos petroquímicos). Está associada a multinacionais, domina o gasoduto Brasil–Bolívia, o transporte de petróleo e a distribuição de gás nos Estados, exceto em São Paulo. Segundo estimativas da Agência Nacional de Petróleo, deverá atrair 60 bilhões de dólares em investimentos nos próximos vinte anos. A batalha pelo controle desse império não foi fácil. Joel Rennó só jogou a toalha ao constatar que não teria nenhuma chance de sobreviver. Nas últimas semanas, o ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, só se comunicava com ele por fax e, em Brasília, chamou sua atenção numa reunião com técnicos da empresa. Suas amarras políticas se esgarçavam. A principal delas, o senador Antonio Carlos Magalhães, enquanto Rennó caía, batalhava para fazer o sucessor.
Um integrante da comitiva do presidente Fernando Henrique na inauguração da Hidrelétrica de Porto Primavera viu ACM segurar David Zylbersztajn e perguntar: "Você não quer atravessar a rua?" "Mesmo que quisesse, senador, estou impedido legalmente", respondeu Zylbersztajn. ACM fazia alusão aos edifícios da Agência Nacional de Petróleo e da Petrobras, no Rio, separados por uma ruela. No avião de regresso a Brasília, ACM confidenciou ao ministro Tourinho: "Se ele topar assumir a Petrobras, a gente dá um jeito para uma interpretação legal favorável".
Henri Philippe Reichstul acabou sendo escolhido sem interferência de Antonio Carlos Magalhães. Fernando Henrique Cardoso convidou-o depois de colher boas informações a seu respeito, vindas de técnicos do governo. Além de administrador bem-sucedido na iniciativa privada, o economista tem experiência de governo justamente na área de controle de empresas estatais. Seu trabalho na Petrobras não vai ser fácil. O balanço da companhia é um desastre. O lucro operacional no ano passado foi de apenas 11 milhões de dólares, excluindo as subsidiárias. A Petrobras levou meio século para perfurar o mesmo número de poços que o Canadá perfura em um ano. Nesse panorama, só se pode visualizar um cenário lucrativo lá pelo ano 2005", diz a analista de investimentos Márcia Regina Meirinho, da Lopes Filho, uma consultoria do Rio de Janeiro.

