quinta-feira, 14 de março de 2013

Antes que retirem essa matéria do ar.

Antes que essa matéria seja retirada do ar, transcrevo ela integralmente como foi postada na Internet pela Revista Veja! Caso ela ainda esteja no ar (as eleições estão chegando e o Aébrio está falando muito na Petrobras) você poderá ler aqui seu original.

Sinta o regozijo de Veja ao dar esta informação:

A fera domada 

 Como o governo finalmente assumiu o controle da Petrobras 

 Sob o comando de Joel Rennó (à dir.), a Petrobras faturava 26 bilhões de dólares anuais e tinha um lucro operacional minúsculo, de 11 milhões de dólares. Com o novo presidente, Henri Reichstul (à esq.), o governo vai desfazer-se de 34% das ações. Poderá vender algumas refinarias. A Petrobras, que é a maior empresa do país, passará a ser administrada como empresa privada. 

Foram precisos quatro anos, dois meses e 24 dias para o presidente Fernando Henrique assumir o comando de uma expressiva parcela de seu reinado: a maior empresa brasileira, a Petrobras. Desde o início do primeiro mandato, FHC discute com os assessores a necessidade da troca de comando na estatal do petróleo, que eliminaria resistências e possibilitaria ao governo interferir no destino da companhia. Em pelo menos duas ocasiões seu movimento foi barrado por pressões corporativistas poderosas. A novela viveu os últimos capítulos na semana passada. O engenheiro Joel Rennó, que ocupou a presidência da Petrobras por seis anos, comportando-se, de maneira geral, como se o governo não fosse o principal acionista da companhia, deixou o cargo. Assumiu o posto o economista Henri Philippe Reichstul, secretário-geral do Ministério do Planejamento à época de João Sayad, no governo do presidente José Sarney. Com a troca de comando, a Petrobras, 15ª do mundo no setor petrolífero, inicia um processo de transformação: despe o uniforme estatal e ensaia os primeiros passos com o leve traje das companhias privadas.

A tarefa não poderia ser levada adiante pela antiga equipe. Historicamente, a Petrobras forma um corpo coeso que resiste à perspectiva de privatização. A nova gestão elegeu como meta principal a "descontaminação" da empresa. Todos os diretores serão substituídos no período máximo de três meses. Orlando Galvão, diretor financeiro e depositário da caixa-preta da companhia, é a exceção. Como o governo tem pressa em conhecer as entranhas da estatal, abrir as contas e os negócios, ele será detonado de imediato. "Desmontar a trama de interesses consolidada no decorrer de seis anos é tarefa para gigante", diz Luís Octávio da Motta Veiga, ex-presidente da estatal.

Além dessa faxina, a extinção do velho conselho de administração e a pulverização do capital da empresa são as maiores modificações em curso. Com nove membros, dos quais sete diretores têm mandato vencido desde o ano passado, o velho conselho não passava de um arranjo em que diretores prestavam contas a si mesmos e se autogovernavam. O novo conselho tem mais força na hierarquia e é composto de nomes que acrescentariam qualidade profissional e experiência a qualquer empresa privada brasileira. Com um pouco de boa vontade, pode-se dizer que o governo colocou em curso uma privatização "branca" na Petrobras. Ele controlará a empresa com a maioria de 50% das ações mais uma. Vai desfazer-se de outros 34% das ações que possui. Algumas das onze refinarias serão vendidas. "A privatização pára aí", garante David Zylbersztajn, diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, órgão controlador do setor. "Não faz sentido tirar um monopólio do setor estatal e passá-lo ao setor privado."

A Petrobras fatura 26 bilhões de dólares por ano. Controla subsidiárias como a BR Distribuidora e a Petroquisa (com participação nos pólos petroquímicos). Está associada a multinacionais, domina o gasoduto Brasil–Bolívia, o transporte de petróleo e a distribuição de gás nos Estados, exceto em São Paulo. Segundo estimativas da Agência Nacional de Petróleo, deverá atrair 60 bilhões de dólares em investimentos nos próximos vinte anos. A batalha pelo controle desse império não foi fácil. Joel Rennó só jogou a toalha ao constatar que não teria nenhuma chance de sobreviver. Nas últimas semanas, o ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, só se comunicava com ele por fax e, em Brasília, chamou sua atenção numa reunião com técnicos da empresa. Suas amarras políticas se esgarçavam. A principal delas, o senador Antonio Carlos Magalhães, enquanto Rennó caía, batalhava para fazer o sucessor.


Um integrante da comitiva do presidente Fernando Henrique na inauguração da Hidrelétrica de Porto Primavera viu ACM segurar David Zylbersztajn e perguntar: "Você não quer atravessar a rua?" "Mesmo que quisesse, senador, estou impedido legalmente", respondeu Zylbersztajn. ACM fazia alusão aos edifícios da Agência Nacional de Petróleo e da Petrobras, no Rio, separados por uma ruela. No avião de regresso a Brasília, ACM confidenciou ao ministro Tourinho: "Se ele topar assumir a Petrobras, a gente dá um jeito para uma interpretação legal favorável".


Henri Philippe Reichstul acabou sendo escolhido sem interferência de Antonio Carlos Magalhães. Fernando Henrique Cardoso convidou-o depois de colher boas informações a seu respeito, vindas de técnicos do governo. Além de administrador bem-sucedido na iniciativa privada, o economista tem experiência de governo justamente na área de controle de empresas estatais. Seu trabalho na Petrobras não vai ser fácil. O balanço da companhia é um desastre. O lucro operacional no ano passado foi de apenas 11 milhões de dólares, excluindo as subsidiárias. A Petrobras levou meio século para perfurar o mesmo número de poços que o Canadá perfura em um ano. Nesse panorama, só se pode visualizar um cenário lucrativo lá pelo ano 2005", diz a analista de investimentos Márcia Regina Meirinho, da Lopes Filho, uma consultoria do Rio de Janeiro.

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